Berlim é dessas cidades assim: chega aproximando-se curvilínea, faz uma parábola amorosa no seu peito, abre um ângula e te toma de jeito. súbito já não há caminhos de saída, há linhas de u-bahns e s-bahns rumo lagos, há mini-jardins encantados (e passarinhos, mil passarinhos).
há um homem que me ama, há uns poucos novos-conhecidos que me fazem rir. há boêmia na segunda-feira. há shows de radiohead, nick cave. há bibliotecas cheias de filmes, livros e música. a ópera dança, o unter den linden sorri sua boca de museus, de festivais, de cultura. na reviravolta do arco debaixo do Brandenburger Tor quando menos se espera Berlim já te enlaçou como fita invisível, cordão umbilical pululante que não sufoca, que te enche d o líquido da vida e aí já é primavera.
a cidade acorda cedo, se veste de passarinhos, canta um onírico zunido, acode trems e metrôs, solta uns loucos e loucas pelas ruas (que descalços sem ser hippies vagam felizes com o calor do dia ou se colocam em biquinis nos jardins dos prédios como se a cidade toda fosse uma única praia). tudo é mais nítido pela manhã: gentes, risos, árvores.
aí lá pelo meio dia já cansada de tanta compania ela se afasta de ti e só deixa um banho de sol, amarelo, risonho, nunca exagerado. e no começo da tarde já refrescada de brisa, ela te chama para o bailado, joga cadeiras pelas calçadas, anima bares e cafés, enche de gente faladeira as esquinas, de conversas altas os botequins. ela te oferece o por do sol:
porque é primavera.
e à noitinha ela pinta o céu com a lua cheia.
pendura brinquinhos-estrelas em sua orelha. lá pelas tantas onze da noite ela melancólica entoa de sua janela o nachtigall e como se espantada consigo mesmo diz atônita: „Nachtigall, ick hör' dir trapsen“. a noite rodopia, as luzes eletrizantes como um enxame dançam.

e nessa leve sinfonia, nesse ballet citadino, germina qual ramo novíssimo o novo dia, bem cedinho, bem de manhãzinha. no raiar do dia tudo fica em evidência. os anjos-estátuas voam nos nossos sonhos pueris de primavera.
eu observo tudo. uma passante que aqui ficou. porque é primavera.
e é logo depois, no mais tardar no verão, que berlim já me emaranhou, me enredou como a própria epiderme - sem que eu mesma percebesse.
comentários? siga o
coelho
Publicado em 24 de abril de 2008 às 07:43 por isis