Nenia Noctâmbula

à procura de rossè

uma imagem de zlaba feita por ninfalibertina
onde estás?
que horas serao em tua vida?
será que sabes o quanto penso em ti?
na marca que deixaste?
do resto de teus passos em meu caminho, esse fim da picada?
é da falta que é feita essa foto distorcida do seu rosto que enfeita qualquer tela virtual que nao é tua.

mas um dia talvez tu ouças minha voz que silencia a te chamar:

j

(r)osé

!

Publicado em 23 de março de 2009 às 17:56 por isis

da ânsia de escrever

de brossa, poema objeto
às vezes ela bate na porta. letras caminham em fila indiana. sem dar as mãos elas avançam o sinal vermelho. um a esborrachou-se em meio a pista, um i perdeu seu acento agudo, pior o u separado de sua trema tragicamente, nunca mais será o mesmo em sua linguística. e eu, dispersa em segurar pelo rabo uma consoante que me foge e cola-la com uma vogal que me escapa, me perco na hora e mal percebo que amanhece o dia lá fora.

Publicado em 27 de outubro de 2008 às 22:38 por isis

dos erros

de erros constroem-se lacunas à própria sorte.

Publicado em 27 de outubro de 2008 às 22:38 por isis

do esquecimento: alcóolicas (ou Homenagem à H.H.)

caminho para perder-me como um Ukiyo-ê, eu-simulação

um gole, um trago e absorvo-me.

e nele vão-se todos os meus medos, como um catalisador que provoca um buraco negro: de esquecimento. e quanta beleza há no deslembrar! é o salto na decadência do corpo.

imagem do vídeo red dreams


submergir na dor de cabeça, como desmembrar os extremos de meu não-corpo. e assim renasço:
um simulacro.


para comentar: siga o coelho.

Publicado em 31 de agosto de 2008 às 20:28 por isis

“Humanity Lobotomy”



antes que esse e outros cérebros explodam, clique na foto e veja o vídeo sobre Net Neutrality.

quer opinar? seja como alice, siga o coelho.

Publicado em 25 de julho de 2008 às 14:09 por isis

sentimento saturnino

"De la Musique avant toute chose !
Et pour cela préfère l'Impair
Plus vague et plus soluble dans l'air
Sans rien en lui qui pèse et qui pose."
Paul Verlaine


a convalescença me reverte como um grito surdo, de algum basquiat


a convalescença me agride. a gripe me ataca. rouquidão, sufoco. a noite mal dormida ainda revirando no estômago.
a música da tarde que se foi, uma sinfonia inacabada, algo proveniente de algum vento de allegro con motto. um verso. uma folha marcando alguma lembranca empoeirando como letras de livros na estantes da biblioteca antiga, secreta, tumular, de algum antepassado abandonado, que há anos morrera. assim caminha fúnebre os dias. o amargo é do chá já frio ou da falta de desejo pela vida?
a vida, ah. é um capricho. um desleixo da morte. um intervalo entre a não existência e o desaparecimento. quantos túmulos ainda persistem contra o tempo e ironicamente ainda se lêem as palavras "eterno", "inesquecível", "para sempre", enquanto o nome já apagado exprime a verdade irrefutável da efemeridade. nem o medo, nem a crença a deus, nem os filhos, nem a escrita nos eximirá. é o tempo lá fora passando nas entrelhinhas desse caderno sem pautas.
é o amargo do chá, já frio. a noite mal dormida revirando o dia. e esse menuetto de schubert. é esse sentimento, que nada tem a ver com alguma imensidão plantetária, é esse peso de chumbo colando ao céu da boca, ganhando espaço em alguma letra: é o repouso (onde pousam tais desconfortos d'alma).

tormentos? o coelho te leva à toca

Publicado em 24 de julho de 2008 às 15:47 por isis

in rainbows, o concerto

era alguma hora do fim da tarde que não acabava. não findava porque era verão no lado norte do mundo, que por ser redondo não tem lados, ou teria? tardava. e havia gentes e mais gentes e mais gentes. mas nenhuma criança. criança não. mas, no entanto havia música. isso havia. e havia um palco. com tanta luz. uma chuva de telas riscadas atravessando, como espelhos começados, que irradiavam luzes de mil cores. e longe, quase perto, mas intocável, estavam eles: RADIOHEAD.
o palco de onde vinha música e tanta luz

e súbito chuva. que esfriava os corpos turbulentos. e que refrescava e lavava o ritmo, dando a ele um calor inédito. um calor novíssimo. era dia de alguma coisa. e o dia dessa coisa (que não há palavras a explicá-la) tinha cheiro, cor de luz. e estávamos lá, eu, ele e meu irmão. meu irmão! como num sonho. um doce sonho abstrato e cheio de cor. e alguém cantava: "Strobe lights and blown speakers/ Fireworks and hurricanes"
mil telas com mil luzes com alguns músicos: maravilhoso!

e alguém trazia qualquer ruído estelar, sintetizado, numa lentidão veloz. meus olhos super estroboscópios observando enquanto ao meu lado ele congelava as imagens num aparelho e meu irmão? sorria. no palco alguém esverdeado dissipava-se em cordas de guitarra e qualquer radiação electromagnética visível, quase sem rosto:
Jonny Greenwood verde fantasmagórico

e num outro instante esse alguém era junto a outrem somente qualquer esboço de alguns quantums simples, um photós.
thom e colin em forma de luz: super fibrilantes!

e foi uma explosão. cores, sentidos, canções. e só agora, três dias depois consigo esboçar essa coisa que conta desse dia. só agora consigo dividir essas imagens.
thom voa, dança, flutua no palco.

elas que parecem rabiscos de qualquer traço fibrilante, de qualquer tela irreal, desenho de gente que dança ou voa. só.

....

todas as fotos foram feitas por B. Wagenseil

...

quer falar? siga o coelho

Publicado em 11 de julho de 2008 às 14:15 por isis

uma poesia para calar as horas

fotografia de roman vishniac: o homem na janela observa o tempo

"Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta tempora assedia;

Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia a sobra franca
E em feixe atado agora o vejo trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;

Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono

Morrem ao ver nascer a graça nova.
Contra a foice do tempo é vão combate
Salvo a prole, que o enfrenta se te abate."

William Shakespeare

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Publicado em 27 de junho de 2008 às 11:49 por isis

josé=johannes

a árvore em duas, duas em uma e eu a olhar distraída a sombra das coisas

ontem encontrei josé-johannes no weinsalon. eu que já o vira outras vezes, em outras ocasioes. ele: o duplo. mais jovem. o mesmo olhar. que me olhava como que me seguindo. o mesmo inclinar com a cabeça daquele josé carlos que conheci num remoto bar brasil. esse foi no salão do vinho.
no weinsalon o duplo vagueia entre espaços qual fantasma entre as horas
enquanto na outra sala eu derramava um punhado de vinho ao solo e entoava "evoé", ele provavelmente jogava sinuca e silenciava palavras desnecessárias. eu rodeada de gentes, na mesa, na poltrona-trono derramando o vinho como quem entorna a si própria: num deleite.
ele o duplo caminhando por espaços próximos como um fantasma. o duplo de josé: johannes.o nome do outro parcialmente dentro do seu. e ele nem sabe. mal eu o sei. no bater das badaladas, nas tantas da noite, ele derramou seu olhar mais uma vez em mim-solo. (irrefutável atração!) e eu entoei: prost! ele aturdido buscou o copo e nada encontrou, ofereci o meu. rimos. ele tomou, dividimos, bebemos. e ele perguntou meu nome, a seguir de minha resposta revelou-me: "īgnis em latim significa fogo". estremeci.
o melhor seria nem olhar o duplo, nem dar asas a saudade, nem colocar fogo na maria-fumaça das lembranças, nem aquecer velhas nostalgias. eu ri. bebemos. e nos despedimos. dois próximos estranhos, "nos vemos por aqui". ele o duplo desconhecido. ele o duplo johannes, de algum josé, de algum passado.

....

se é que ainda um senhor josé carlos de araujo jr. ainda apareça por aqui: gratulações por teus anos, tua pessoa. e alerte-se seu duplo caminha entre ruas berlinenses na fuligem de vinho.

::comentários? siga o coelho

Publicado em 07 de junho de 2008 às 11:45 por isis

a dança berlínica (da série cidaDELAs)

Berlim é dessas cidades assim: chega aproximando-se curvilínea, faz uma parábola amorosa no seu peito, abre um ângula e te toma de jeito. súbito já não há caminhos de saída, há linhas de u-bahns e s-bahns rumo lagos, há mini-jardins encantados (e passarinhos, mil passarinhos).
um mini-jardim secreto em um lago nessa cidade-minha, by me

há um homem que me ama, há uns poucos novos-conhecidos que me fazem rir. há boêmia na segunda-feira. há shows de radiohead, nick cave. há bibliotecas cheias de filmes, livros e música. a ópera dança, o unter den linden sorri sua boca de museus, de festivais, de cultura. na reviravolta do arco debaixo do Brandenburger Tor quando menos se espera Berlim já te enlaçou como fita invisível, cordão umbilical pululante que não sufoca, que te enche d o líquido da vida e aí já é primavera.
bild ausgeliehen des tollen blogs: grauefarben.de

a cidade acorda cedo, se veste de passarinhos, canta um onírico zunido, acode trems e metrôs, solta uns loucos e loucas pelas ruas (que descalços sem ser hippies vagam felizes com o calor do dia ou se colocam em biquinis nos jardins dos prédios como se a cidade toda fosse uma única praia). tudo é mais nítido pela manhã: gentes, risos, árvores.
ainda desnudas, elas esperam para se vestir de primavera.by me.

aí lá pelo meio dia já cansada de tanta compania ela se afasta de ti e só deixa um banho de sol, amarelo, risonho, nunca exagerado. e no começo da tarde já refrescada de brisa, ela te chama para o bailado, joga cadeiras pelas calçadas, anima bares e cafés, enche de gente faladeira as esquinas, de conversas altas os botequins. ela te oferece o por do sol:
esquina de casa. by me

porque é primavera.

e à noitinha ela pinta o céu com a lua cheia.

by me

pendura brinquinhos-estrelas em sua orelha. lá pelas tantas onze da noite ela melancólica entoa de sua janela o nachtigall e como se espantada consigo mesmo diz atônita: „Nachtigall, ick hör' dir trapsen“. a noite rodopia, as luzes eletrizantes como um enxame dançam.

by me by me
e nessa leve sinfonia, nesse ballet citadino, germina qual ramo novíssimo o novo dia, bem cedinho, bem de manhãzinha. no raiar do dia tudo fica em evidência. os anjos-estátuas voam nos nossos sonhos pueris de primavera.
eu. by me.

eu observo tudo. uma passante que aqui ficou. porque é primavera.
e é logo depois, no mais tardar no verão, que berlim já me emaranhou, me enredou como a própria epiderme - sem que eu mesma percebesse.

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Publicado em 24 de abril de 2008 às 07:43 por isis

esse caderno de devaneios é escrito por í.

de leonilson: o templo. porque aqui é a sagrada casa virtual onde posso esparramar minhas nenias noctambulas

"É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços,
Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso."
(de Hilda Hilst, Alcoólicas)

OUTRAS PARAGENS
a cor ilegal da menina de sardas

algumas impressoes em luz e sombras

muitas formas de escrever a cidade

caleidoscópios

a máquina que escreve fantasia (poema objeto de brossa)

aqui escrevo minhas saudades, meios anseios,
minhas letras íntimas, algum esboço de mim,
do que fui, do que sonho e do que amo.
aqui fico absorta em mim.
daqui voam meus confetes e serpentinas em forma de letras,
de palavras carnavalescas.
daqui se recortam, se partem partes de meus dias,
de minhas horas e de qualquer paisagem.
essa é uma nenia noturna, segredada a alguém ou ninguém.

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